Os números não fazem barulho, mas gritam. Em apenas três anos, mais de 169 mil pessoas buscaram atendimento por sofrimento psíquico nas UPAs da rede estadual do Rio de Janeiro. É uma média assustadora de mais de 150 atendimentos por dia relacionados à saúde mental. Uma verdadeira epidemia silenciosa, que cresce diante dos nossos olhos e ainda é tratada, muitas vezes, como secundária.
Levantamento inédito da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), com base nos atendimentos realizados entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, mostra um aumento contínuo e preocupante: foram 50.624 casos em 2023, 60.058 em 2024 e 64.400 em 2025. Ansiedade generalizada, crises de pânico, insônia não orgânica e estresse pós-traumático estão entre os principais quadros registrados nas emergências.
Os dados ganham ainda mais peso neste Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental. Eles escancaram uma realidade que já está nas ruas, nas casas, nos ambientes de trabalho e, agora, de forma cada vez mais frequente, nas portas das unidades de emergência.
A secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, resume a gravidade do cenário ao afirmar que os números refletem o sofrimento de uma parcela significativa da população e reforça que saúde mental precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra condição clínica.
Um dos recortes mais sensíveis do levantamento revela quem mais está adoecendo: mulheres entre 20 e 29 anos concentram o maior número de atendimentos. Nesse grupo, o aumento foi de 38% em três anos, passando de 9.075 para 12.549 ocorrências. É uma geração pressionada por cobranças estéticas, profissionais, emocionais e sociais, potencializadas pela cultura do imediatismo e da exposição constante nas redes sociais.
O superintendente de Unidades Próprias e Pré-hospitalares da SES-RJ, Leandro Troncoso, chama atenção para esse fator. Segundo ele, a lógica da comparação permanente, da felicidade obrigatória e da autoexigência extrema contribui diretamente para o crescimento das crises emocionais que chegam às emergências.
Quem vive o dia a dia das UPAs confirma esse retrato. Na UPA Ricardo de Albuquerque, na Zona Norte do Rio, a diretora Luciana Dias observa que mulheres jovens são maioria nos atendimentos, sobretudo em crises de ansiedade e em casos de violência autoprovocada. Falta de segurança, estresse cotidiano, sobrecarga de trabalho e responsabilidades familiares aparecem como gatilhos frequentes.
O alerta se torna ainda mais grave quando se analisam os dados de lesões autoprovocadas e intoxicações intencionais. Foram 3.428 atendimentos desse tipo nas UPAs estaduais em três anos. Além disso, 4.509 pacientes precisaram ser internados para observação, e houve seis óbitos relacionados a episódios críticos de saúde mental nas unidades de emergência.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) também registra crescimento expressivo. Entre 2023 e 2025, foram 75.892 ocorrências ligadas a transtornos mentais ou comportamentais, o equivalente a 12% de todos os atendimentos realizados na capital. Assim como nas UPAs, as mulheres lideram as estatísticas.
Os números deixam claro: não basta agir apenas na emergência. É preciso falar sobre saúde mental, acolher, ouvir, reduzir estigmas e fortalecer a rede de apoio antes que o sofrimento vire crise.





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