Os números sobre feminicídio divulgados pela Agência Brasil são alarmantes, mas não surpreendentes, e talvez esse seja o aspecto mais triste. O Rio de Janeiro registrou 107 feminicídios em 2024. Cento e sete mulheres assassinadas por serem mulheres. Cento e sete vidas interrompidas por homens que acreditaram ter direito sobre seus corpos, seus passos, seus destinos.
Setenta e seis por cento de todos os assassinatos de mulheres no estado foram feminicídios. A maioria dos crimes aconteceu dentro de casa. Muitos deles praticados por companheiros e ex-companheiros. O lugar onde deveria haver cuidado é o cenário da violência final. E é impossível ver tudo isso sem se perguntar: onde nasce esse homem que mata?
Os dados mostram o que já sabemos: feminicídio não começa no dia do crime. Ele é o capítulo final de um ciclo de agressões físicas, psicológicas, morais. Mas esse ciclo começa muito antes, começa na infância, na forma como educamos nossos meninos.
E aqui entra uma reflexão desconfortável, mas necessária: as mulheres também participam da formação desses homens. Não porque sejam responsáveis pela violência que eles cometem, mas porque parte do machismo estrutural se transmite dentro de casa, muitas vezes sem percebermos.
Somos nós que muitas vezes dizemos ao menino “não chora”, “aguenta”, “seja forte”. Somos nós que o colocamos num pedestal: o “príncipe”, o “homem da casa”. Somos nós que, muitas vezes por excesso de amor, cobramos menos dos meninos e mais das meninas. Elas aprendem a ajudar, a dividir, a servir. Eles aprendem a ser servidos.
Em que momento essa rédea escapa? Talvez no instante em que naturalizamos pequenas violências: o menino que empurra a menina “porque gosta dela”. O adolescente que faz piada sexual e é tratado como esperto. O filho que não ajuda em casa porque “isso é coisa de mulher”. Assim nasce a crença de que o corpo feminino, o tempo feminino e a vida feminina lhe pertencem.
Isso não isenta o Estado, longe disso. Medidas protetivas falham, agressores reincidem, denúncias são ignoradas, processos não andam. Setenta e sete mulheres já tinham histórico de agressão; apenas 17 denunciaram oficialmente. E mesmo assim, 13 tinham medida protetiva. Morreram do mesmo jeito.
O Estado falha repetidamente. Mas não é só o Estado. A sociedade inteira falha quando continua criando meninos que acreditam que perder uma mulher , tanto numa discussão, quanto na vida, é uma ofensa pessoal que precisa ser vingada.
E enquanto discutimos tudo isso, os números de outras violências seguem assustadores: mais de 154 mil mulheres vítimas de agressões em 2024. Mais de 8.300 casos de violência sexual. Crianças de menos de 11 anos abusadas dentro do próprio lar. Como esperar que a violência contra mulheres adultas diminua se falhamos com as meninas desde cedo?
A educação dos nossos filhos é o primeiro território onde o feminicídio pode ser evitado. E isso exige coragem. Exige rever comportamentos, quebrar padrões, enfrentar tradições, recusar privilégios. Exige ensinar aos meninos que não existe amor sem respeito, que não existe poder sobre o outro, que rejeição não é humilhação e que “não” é “não”.
Porque enquanto continuarmos educando meninos para serem reis e meninas para servirem, o ciclo da violência seguirá intacto. E as estatísticas do dossiê do ISP continuarão crescendo como se fossem inevitáveis.
Feminicídio não é tragédia natural. É construção social. E só será desmontado quando o Estado proteger e quando nós, dentro de casa, começarmos a educar meninos para não se tornarem homens que matam.





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